quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Pronto para a partida

O pau de arara está pronto para a partida
Desfaço no peito a oração da fé
Até mesmo as rezas para São José
Não surtiram nenhum efeito a chuva não caiu

Literalmente vendo o tempo passar
Sem vislumbrar nenhuma melhoria
O sertão amado vai ficando para trás
O destino perverso não muda a sina

A seca castiga sem dó e nem piedade
Deixando o solo todo rachado
Os pés de feijão secando no roçado
Minha boneca de milho já morreu no pé

Açucena que era flor resistente
Não aguentou o calor se entregou
No topo das árvores já não canta o sabiá
O riacho que corria está seco

Matando de sede os animais no curral
O funeral do João retrata a vida no sertão
Cada enxadada dada no solo ela trincava
A esperança era sepultada com o João

Os urubus sobrevoam os bichos 
Prestes a morrer de fome
Só estavam em pele e osso
A sombra do umbuzeiro o sol a devorou

A cabra que dava leite também morreu
Agora tristonho vou deixar a minha terra
Vendi o resto que me sobrou
Como asa branca fui embora

Com uma vontade danada de voltar
Mas o sertão é fértil quando a chuva cai
Tudo naquelas paragens florescem
Fazendo o sertanejo renascer das cinzas

Osvaldo Teles

Um comentário:

  1. Este poema é um retrato tocante e poderoso da vida no sertão nordestino durante a seca. Ele evoca imagens profundamente simbólicas e emocionantes, explorando a dor da partida forçada, a dureza do clima e a resistência esgotada do povo sertanejo. Aqui estão alguns destaques e interpretações dos elementos centrais:


    ---

    🌵 Temática principal:

    A seca no sertão e o êxodo rural.
    O "pau de arara" — transporte precário usado por retirantes — já pronto para partir indica a inevitabilidade da fuga da terra natal. A oração desfeita, a fé abalada, mostram que até a espiritualidade, tradicional apoio do sertanejo, começa a ruir frente ao sofrimento prolongado.


    ---

    🌫️ Imagens poéticas marcantes:

    “Os pés de feijão morrendo na roça / As espigas de milho já morreram no pé”
    A colheita perdida simboliza o colapso da subsistência.

    “Açucena que era flor resistente... se entregou”
    Uma metáfora potente: até a beleza e resistência naturais sucumbem.

    “O riacho que corria está seco” / “os sabiás já não cantam”
    A natureza toda silencia e seca, refletindo a desesperança geral.

    “Cada enxadada dada no solo ela trincava”
    A luta pela sobrevivência se torna inútil — até a terra rejeita o esforço.



    ---

    🕊️ **Referências

    ResponderExcluir