Desfaço no peito a oração da fé
Até mesmo as rezas para São José
Não surtiram nenhum efeito a chuva não caiu
Literalmente vendo o tempo passar
Sem vislumbrar nenhuma melhoria
O sertão amado vai ficando para trás
O destino perverso não muda a sina
A seca castiga sem dó e nem piedade
Deixando o solo todo rachado
Os pés de feijão secando no roçado
Minha boneca de milho já morreu no pé
Açucena que era flor resistente
Não aguentou o calor se entregou
No topo das árvores já não canta o sabiá
O riacho que corria está seco
Matando de sede os animais no curral
O funeral do João retrata a vida no sertão
Cada enxadada dada no solo ela trincava
A esperança era sepultada com o João
Os urubus sobrevoam os bichos
Prestes a morrer de fome
Só estavam em pele e osso
A sombra do umbuzeiro o sol a devorou
A cabra que dava leite também morreu
Agora tristonho vou deixar a minha terra
Vendi o resto que me sobrou
Como asa branca fui embora
Com uma vontade danada de voltar
Mas o sertão é fértil quando a chuva cai
Tudo naquelas paragens florescem
Fazendo o sertanejo renascer das cinzas
Fazendo o sertanejo renascer das cinzas

Este poema é um retrato tocante e poderoso da vida no sertão nordestino durante a seca. Ele evoca imagens profundamente simbólicas e emocionantes, explorando a dor da partida forçada, a dureza do clima e a resistência esgotada do povo sertanejo. Aqui estão alguns destaques e interpretações dos elementos centrais:
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🌵 Temática principal:
A seca no sertão e o êxodo rural.
O "pau de arara" — transporte precário usado por retirantes — já pronto para partir indica a inevitabilidade da fuga da terra natal. A oração desfeita, a fé abalada, mostram que até a espiritualidade, tradicional apoio do sertanejo, começa a ruir frente ao sofrimento prolongado.
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🌫️ Imagens poéticas marcantes:
“Os pés de feijão morrendo na roça / As espigas de milho já morreram no pé”
A colheita perdida simboliza o colapso da subsistência.
“Açucena que era flor resistente... se entregou”
Uma metáfora potente: até a beleza e resistência naturais sucumbem.
“O riacho que corria está seco” / “os sabiás já não cantam”
A natureza toda silencia e seca, refletindo a desesperança geral.
“Cada enxadada dada no solo ela trincava”
A luta pela sobrevivência se torna inútil — até a terra rejeita o esforço.
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🕊️ **Referências