sábado, 9 de maio de 2026

Meu pangaré

Coloquei a cela no meu pangaré,

Pode falar, é melhor do que a pé.

O poeirão vai desenhando o rosto,

A alegria vai ser o meu entreposto.


Procurando meu rumo no estradão,

Tirei das lembranças minha solidão.

Ficou para trás o que me machucou,

Levei na memória o que me alegrou.


Estacionei no planeta das fantasias,

Me causando uma grande paralisia.

O meu pangaré aumentava o trote,

Para não ser acertado pelo golpe


Que o destino tinha devidamente armado.

Adentrei o meu caminho desarmado,

Carreguei comigo a vontade de chegar,

Não tivemos nem um tempo para aproveitar.


Não tinha como as pegadas apagar,

O meu companheiro cavalgou comigo.

Estávamos exauridos da longa cavalgada,

Deixamos para trás muitas poeiras.



Osvaldo Teles

Não adianta


Não adianta pedir desculpas,

estou machucado por demais.

Não vou mais correr atrás,

é muito dolorido lhe dizer isso.


Deixou meu ser cheio de tristeza,

brincou com meus sentimentos.

Sabes que causou sofrimentos,

tens um homem que te ama.


Mas tudo você causa drama,

aumentando minha sofrência.

Queria que tivesse consciência,

sonhava em ser feliz contigo.


Deste chance para o inimigo.

Se não queres ser minha amada,

não pretendo ser o seu amigo.

Ainda sinto o sabor do seu batom.


— Osvaldo Teles

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Meu refúgio

Não serás o subterfúgio,

És, Senhor, o meu refúgio,

Meu abrigo, meu amparo;

Diante do Senhor, paro.


Buscarei em Ti minha paz,

Os seus planos se refazem.

Sou dependente do amor

Para aliviar minhas dores,


Que emanam do seu coração,

Preenchendo o meu vazio.

Estou aprisionado pelo fio,

Que será quebrado pela fé.


Tenho por Deus devoção,

Que suas bênçãos invadam

O espaço vazio do meu ser.


Pretendo apenas Te conhecer,

Seus ensinamentos absorver;

Quero receber a vida plena.



— Osvaldo Teles

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Eterno aprendiz

Não tenho tempo para perder,

tenho a minha vida para viver.

Tento esquecer o que me fez,

fico procurando o que fazer.


Há coisas que não pude mudar,

mesmo que as lágrimas rolem.

Tudo na vida tem os porquês,

só não quero ser seu freguês.


O tempo vai ser minha escola,

pretendo aprender sem demora.

A vida é curta, a morte é eterna,

não tem sentido brigar com ela.


Serei, assim, um eterno aprendiz,

é o que minha experiência me diz.

Eu, homem, só tenho a aprender,

a minha vida me proponho viver.



Osvaldo Teles

terça-feira, 5 de maio de 2026

Cantos majestosos

Acordava no belo raiar do dia,

Ia absorvendo a sua maresia,

Sentindo toda a sua lindeza,

Me sentia a mais bela realeza.


O cantar do galo, o despertador,

As afinadas carretilhas do canário

Desenhavam na mente belo cenário,

O sol fazia as neblinas dissiparem.


Como era lindo o novo amanhecer,

A natureza em júbilo despertava,

Os pássaros, na maior algazarra,

Soltavam seus cantos majestosos.


Ecoando por todos os cantos,

Pulando de galho em galho,

Os cardeais faziam sua festa,

Despertando feliz para a vida.



Osvaldo Teles

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Lágrimas da minha solidão

A água vai correr para o Riachão,

igual às lágrimas da minha solidão.

Náufrago dentro de mim mesmo,

à estação transitória me aproximo.


O coração machucado se encontra

numa nascente de água cristalina.

Derramo os prantos de minhas dores,

não dá para ouvir os meus clamores.


Por fora, reflete o que sinto por dentro.

Nas estradas, deixei minhas lamúrias,

no decorrer, fui esquecendo as juras,

buscando no amor as minhas curas.


Em um mar de angústia me encontro,

ficando desorientado nessa procura.

Procurei no mundo o ser encantado

para tornar o nosso jardim colorido.



Osvaldo Teles

Sociedade excludente: quem controla

 Sociedade Excludente: quem controla o jogo social no Brasil?


Por Osvaldo Teles


Em meio aos discursos recorrentes sobre combate à corrupção e defesa da igualdade, uma pergunta incômoda precisa ser feita: quem, de fato, controla o sistema? A resposta, ainda que desconfortável, aponta para uma elite que historicamente detém o poder econômico e político, influenciando diretamente as estruturas do Estado.


A máquina pública, longe de ser neutra, reflete desigualdades profundas. Nos espaços de decisão — como ministérios e cortes superiores — a diversidade muitas vezes aparece apenas de forma simbólica. A ausência significativa de pessoas negras em posições de maior poder levanta um debate urgente: trata-se de falta de qualificação ou de um sistema que, desde sua origem, reproduz barreiras estruturais?


A sociedade brasileira, nesse sentido, parece repetir padrões antigos de dominação. Enquanto o discurso oficial enfatiza a igualdade de oportunidades, a prática revela um cenário diferente, onde a ascensão social ainda encontra obstáculos bem definidos. A presença da população negra em ambientes de prestígio, especialmente no campo do conhecimento, frequentemente provoca incômodo, pois rompe com uma lógica historicamente estabelecida.


Esse fenômeno dialoga com teorias clássicas da sociologia. De um lado, a ideia de que as estruturas sociais tendem a perpetuar desigualdades ao longo das gerações. De outro, a compreensão de que o acesso ao conhecimento pode ser um instrumento de transformação e mobilidade social. Entre esses dois polos, encontra-se a realidade de milhões de brasileiros que lutam diariamente para romper ciclos de exclusão.


Não se pode ignorar, ainda, a dívida histórica do país com a população negra. Após séculos de exploração e ausência de políticas de inclusão efetivas, os impactos permanecem visíveis. Comunidades periféricas enfrentam condições precárias de moradia, acesso limitado à educação de qualidade e inserção majoritária em trabalhos informais ou de baixa remuneração. Trata-se de um quadro que não é fruto do acaso, mas de escolhas históricas.


Nesse contexto, cresce o sentimento de distanciamento em relação à classe política. Para muitos, ela parece mais alinhada aos interesses da elite econômica do que às necessidades da população em geral. Soma-se a isso a atuação de setores que, em vez de promover mudanças sociais amplas, acabam reforçando relações de poder já consolidadas, muitas vezes por meio de influência direta nas decisões políticas e econômicas.


Diante desse cenário, a reflexão que se impõe é clara: é possível falar em igualdade real em um sistema que, estruturalmente, ainda exclui? Reconhecer o problema é o primeiro passo. O desafio seguinte é transformar essa consciência em ação — por meio da educação, da participação social e da construção de políticas públicas mais justas e inclusivas.


Enquanto isso não acontece, o país segue convivendo com uma contradição evidente: a de se apresentar como uma nação plural e democrática, mas manter, na prática, mecanismos que limitam o acesso de muitos aos mesmos direitos e oportunidades.