terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Acorda, meu povo

Acorda, meu povo, a sala da roça

Já vai começar, a fanfarra vai passar.

Clarineta e zabumba a tocar, corneta

Anunciavam o belíssimo amanhecer.


As caretas vão logo atrás da criançada,

Vão na maior algazarra, a festa ia começar.

A cidade toda despertava no alvorecer,

Da Praça Castro Alves à Praça da Bandeira.


Era a maior festança, e com muita brincadeira,

Estava começando a festa de São Benedito,

Festejando o Ano-Novo que está chegando.

Como era lindo, parecia uma grande fantasia.


Tudo nos reportava para um mundo encantado,

Uma alegria tomava conta dos corações.

A tradição ia passando para outras gerações,

Com o passar do tempo, a tradição foi esquecida.


Osvaldo Teles


Memória, oralidade e esquecimento: a tradição popular em “Acorda, meu povo”, de Osvaldo Teles

Resumo


O poema “Acorda, meu povo”, de Osvaldo Teles, constitui um importante registro poético da cultura popular brasileira, centrado na memória coletiva de uma festividade tradicional — a Festa de São Benedito. Através de uma linguagem simples e marcada pela oralidade, o texto constrói imagens sonoras e visuais que evocam o amanhecer festivo, a musicalidade da fanfarra e a participação comunitária. Contudo, ao final, o poema assume um tom melancólico ao denunciar o esquecimento progressivo dessa tradição. Este artigo analisa os aspectos temáticos, simbólicos e culturais do poema, destacando sua relevância como instrumento de preservação da memória e resistência cultural.

Palavras-chave: poesia brasileira; cultura popular; memória coletiva; tradição; oralidade.


1. Introdução


A literatura brasileira de cunho popular desempenha papel fundamental na preservação das manifestações culturais que, muitas vezes, não encontram espaço nos registros oficiais. Nesse contexto, o poema “Acorda, meu povo”, de Osvaldo Teles, apresenta-se como um testemunho poético da vivência comunitária ligada às festas tradicionais do interior brasileiro. O texto não apenas descreve um evento festivo, mas reflete sobre o tempo, a memória e o esquecimento cultural.


2. O amanhecer como símbolo de renovação


O poema inicia-se com um chamado coletivo — “Acorda, meu povo” — que ultrapassa o sentido literal do despertar matinal. O amanhecer simboliza o renascimento da vida comunitária e da tradição, anunciado pela fanfarra e pelos instrumentos musicais. A música assume função ritualística, marcando o início da celebração e integrando o espaço urbano ao movimento festivo.


3. Espaço, coletividade e identidade cultural


As referências às praças da cidade conferem concretude ao espaço poético e reforçam seu caráter coletivo. A praça, enquanto local de encontro social, transforma-se em palco simbólico da identidade cultural. A presença das crianças, das caretas e da algazarra revela a dimensão lúdica da festa e sua importância como prática de socialização e transmissão cultural.


4. Oralidade e musicalidade na construção poética


A linguagem empregada no poema é simples, direta e marcada pela oralidade, característica comum às manifestações culturais populares. A enumeração de instrumentos musicais e a cadência dos versos conferem musicalidade ao texto, aproximando-o das marchas, cortejos e cantos tradicionais. Essa escolha estilística reforça o vínculo entre forma e conteúdo, fazendo da poesia um prolongamento da própria festa descrita.


5. Memória, transmissão e esquecimento


Ao afirmar que “a tradição ia passando para outras gerações”, o eu lírico reconhece a função social da festa como elemento de continuidade cultural. No entanto, o verso final — “Com o passar do tempo a tradição foi esquecida” — rompe com o tom celebrativo e introduz uma reflexão crítica sobre o apagamento das tradições populares. O esquecimento surge não como ruptura abrupta, mas como processo silencioso, consequência das transformações sociais e culturais.


6. Considerações finais


O poema “Acorda, meu povo” revela-se, assim, mais do que uma simples evocação nostálgica. Trata-se de um ato poético de resistência, que resgata e preserva, pela palavra, uma tradição ameaçada pelo esquecimento. Ao registrar a festa que já não ocupa o mesmo espaço no cotidiano, Osvaldo Teles reafirma o papel da poesia como guardiã da memória coletiva e instrumento de valorização da cultura popular.




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